História, Meinecke e Historicismo

Meinecke escreve que a filosofia dominante antes do desenvolvimento do senso histórico era a filosofia da Lei Natural, com o caráter da razão universal e homogênea e que o problema da subjetividade, da sua autoridade e suas leis internas formaram o primeiro estágio para o desenvolvimento da consciência histórica. Meinecke aponta Descartes e outros Iluministas, como Locke e os empiristas ingleses, que, respectivamente, particularizam a razão e desviam da idea de ideias inatas. Mas se por um lado esse empirismo apresentava o caráter psicológico das crenças e dos costumes, como Hume o fez, por outro lado surgia o protótipo do novo naturalismo que agora adentrava no ramo das humanidades e, igualmente, postulava leis e causalidades nos moldes da antiga Lei Natural. Vale, porém, referir-se ao período de disputas epistêmico-teológicas entre Católicos e Protestantes sobre o critério da fé: de um lado a autoridade histórica da Igreja e sua tradição e, depois, pela via do ceticismo contra-Reforma, o problema da objetividade e do outro lado a subjetividade da persuação interior pelo Espírito Santo (ou a racionalidade livre, de Hegel, contrastada à positividade do Cristianismo). Assim o Iluminismo e seus representantes poderiam não formar o primeiro, mas o segundo estágio do desenvolvimento e formação da consciência histórica. O papel de Descartes no desvio da antiga filosofia da Lei Natural tal como sua limitação de consciência histórica é manifestada nas disputas de Vico (cf. Croce).

Se, por um lado, Leibniz demonstra a capacidade de desenvolvimento do indivíduo, por outro, Vico irrompe com um desenvolvimento histórico e nacional, já que há uma Providência Divina condicionando os estágios e todo o processo histórico, que é manifestado nas nações e nas comunidades e suas instituições.

Com as narrativas de viajantes e missionários no Novo Mundo, como Lafitau, e na China, com os jesuítas, o estrangeiro é a prova da homogeneidade da razão universal, a virtude e a doutrina moral da China é admirada e, como o que depende do hábito difere e o que é próprio da natureza humana é igual de uma extremidade à outra do planeta, Voltaire torna consciente a força do hábito, dos costumes e instituições de outras nações, e, assim, justifica toda a diferença da unidade e assim argumenta contra Montesquieu dizendo que nem sempre o clima é o fator principal de influência, mas sim o governo, a religião, os hábitos, o caráter e as paixões que a Natureza imprime nos indivíduos. Toda a produção de literatura de registro de viagens demonstra o caráter inteligível das instituições estrangeiras e também dos supostos selvagens. Mas também demonstra a arbitrariedade dos valores dos costumes de um povo. Nem tudo o que representa a cultura e as instituições de um povo seguiu o padrão universal da razão. A investigação histórica Iluminista agora manifestava as razões de um relativismo. O Newtonianismo Iluminista, portanto, também participava dessa empreitada relativista enquanto que os valores de uma cultura de um povo dependem de razões e causas ocultas que fogem da apreensão do historiador. A natureza institui a razão, mas também as paixões. A sequência de causa e efeito mecânicas são iguais em ambas, mas as sequências das paixões são mais dificilmente apreendidas. A história agora é uma luta entre a razão e a paixão. E entre os diversos efeitos de paixões multiformes, temos as diversas formas das diversas nações.

Deve-se reconhecer, novamente, que a história, no geral, é uma coleção de crimes, loucuras e infelicidades, entre a qual temos, de vez em quando, alguma virtude e alguns tempos felizes.
No curso de tantas revoluções foram formadas várias nações quase totalmente selvagens naquelas nações da Europa e da Ásia que eram anteriormente as mais civilizadas.

Comparando a Eurpa e a Ásia:

Nos diferenciamos em todos os respeitos, em religião, política, governo, modos, culinária, vestuário, e até na nossa maneira de escrever, de nos expressar e pensar. Aquilo no que mais nos assemelhamos é na propensão à guerra, ao extermínio e à destruição, que sempre despovoou a face da terra. Deve-se reconhecer, portanto, que essa fúria tomou conta das mentes dos povos da Índia e da China muito menos do que das nossas. [...] Neste respeito, eles são muito melhores membros da sociedade do que nós; entretanto, essa mesma virtude, ou mansidão, deles foi a causa de sua ruína, já que foram todos escravizados.
(Essai sur les mœurs et l'esprit des nations, Chapitre 197).
No meio dessa devastação e desolação percebemos um amor pela ordem que anima secretamente a humanidade, e o que evitou sua total destruição. Foi isso que formou todos os códigos de lei das nações. [...] Em todas as nações há uma contenção ao poder arbitrário, seja pela lei, pelos modos ou costumes. [...] A religião ensina os mesmos princípios de moralidade em todas as nações. As cerimônias dos Asiáticos são ridículas, suas crenças são absurdas, mas seus preceitos são justos. [...] Não devemos acreditar naqueles viajantes e missionários que representaram o sacerdócio Oriental como pessoas que pregam a iniquidade. Isto é difamar a natureza humana. Não é possível que deva existir uma sociedade religiosa instituída para o apoio ou propagação do vício. Nos enganaríamos se pensássemos que a religião Maometana devesse seu estabelecimento inteiramente à espada. Os Maometanos tiveram seus missionários na Índia e na China.
(Essai sur les mœurs et l'esprit des nations, Chapitre 197).
Resulta deste quadro que tudo o que é íntimo da natureza humana é o mesmo de uma ponta à outra do universo, e que tudo o que depende dos costumes é diferente, e que se há alguma semelhança, é efeito do acaso. O domínio do costume é muito mais vasto do que o da natureza e estende-se todos os modos e hábitos, difundindo a variedade sobre o mundo. A natureza estabelece unidade, e em todo lugar estabelece alguns princípios invariáveis. O solo é o mesmo, mas a cultura produz frutos variados. Como a natureza colocou no coração do homem interesse, orgulho e todas as paixões, não é de se surpreender que, durante o período de seis séculos, nos deparamos com uma sucessão contínua de crimes e desastres. Se voltarmos aos tempos anteriores, não encontraremos nada melhor. O costume fez com que o mal operasse em todos os lugares de maneira diferente.
(Essai sur les mœurs et l'esprit des nations, Chapitre 197).

O dualismo razão e desrazão não distingue só as nações entre si, mas distingue passado, presente e futuro. É dessa forma que para Voltaire, assim como para Vico, o que há de razão nos antigos é uma espécie de pré-razão instintiva. Meinecke escreve:

O caminho agora estaria livre para uma concepção da vida histórica menos em termos de razão consciente e mais em termos dos desenvolvimentos anteriores e paralelos no homem--mais capacitada, enfim, a descobrir as forças históricas importantes em ação no lado irracional da vida. O empirismo e sensualismo inglês, como aquele exposto por Hume, fariam avançar ainda mais por este caminho. [...] Neste ponto, Voltaire também falaria de orgãos que se desdobram (se déployer, se développer), mas para todo o resto que o homem faz na história com a ajuda da razão reflexiva que agora se tornou auto-consciente, e para tudo o que se encontra adiante, Voltaire usa repetidamente as palavras ''perfection'' and ''perfectionner''. [...] Mas para Voltaire, alcançar a perfeição sempre quer dizer aproximar-se de um ideal definido, inalterável e eterno estabelecido sobre a base de uma necessidade interna da razão purificada da humanidade. Há, segundo Voltaire, apenas uma simples e universalmente válida moral, e apenas uma norma de bom gosto no mundo. [...] Pois sua estética havia sido invadida pelo mecanismo e toda a concepção de perfeição era completamente mecânica.[...] Até mesmo inícios de uma interpretação biológica da natureza humana carregava o caráter mecanístico. Voltaire dizia que uma lei é dada pela natureza para toda espécie de ser, uma lei que é invariavelmente obedecida. O pássaro constrói seu ninho; as estrelas seguem seus cursos definidos; o homem é criado para a sociedade e é aperfeiçoável dentro dos limites que a própria natureza estabeleceu para sua perfeição.
Voltaire estabelecia os objetivos e limites da perfeição nos ideais culturais da sua França, que era, para ele, o ápice da perfeição de toda a história do mundo.

Voltaire diz que o homem alcançou mais iluminação no último século apenas do que em todo período de tempo anterior. No início do primeiro capítulo do seu livro Le Siècle de Louis XIV, escreve: ''Não é apenas a vida de Louis XIV que se pretende escrever; propõe-se aqui um objeto ainda maior. Busca-se retratar à posteridade, não as ações de um único homem, mas o espírito dos homens no século mais esclarecido que jamais existiu.'' E ao categorizar os ápices da arte e da ciência em uma divisão de quatro eras, dos Gregos, dos Romanos, e do Renascimento Italiano, a última, e que ultrapassa todas as anteriores, é ''aquela que se nomeia o século de Louis XIV, que, talvez, entre as quatro, a que mais se aproxima da perfeição.''; e aquela em que ''la raison humaine en général s'est perfectionnée.'' No artigo Anciens et Modernes (Dictionnaire Philosophique), Voltaire reafirma a posição Iluminista na Querela dos Antigos e Modernos, defende Perrault contra Racine, apesar de todas as diferenças que tinha com aquele defensor dos Modernos; compara os grandes poetas gregos aos grandes franceses:

Não é que Eurípides não tenha suas belezas, e Sófocles ainda mais; mas eles têm defeitos bem maiores. Ousa-se dizer que as belas cenas de Corneille e as comoventes tragédias de Racine superam as tragédias de Sófocles e Eurípides tanto quanto esses dois gregos superam Téspis.
Coloca Molière acima de Terêncio, Aristófanes e Dancourt; provoca: ''Il y a donc des genres dans lesquels les modernes sont de beaucoup supérieurs aux anciens, et d’autres en très-petit nombre dans lesquels nous leur sommes inférieurs. C’est à quoi se réduit toute la dispute.'' E em outro artigo (Art Poétique), ironicamente, julga a Art Poétique de Boileau, um defensor dos Antigos, superior à Ars Poetica de Horácio.

Mas não há em Voltaire nenhuma progressão otimista da razão e da história humana como haveria mais tarde com os Iluministas do final do século 18. Tudo o que há em Voltaire é uma aproximação aos ideais de razão, cultura e civilização de sua própria época. O dualismo não seria superado e o homem continuaria no meio do conflito entre razão e desrazão, sem nunca chegar a um resultado decisivo. Meinecke:

Períodos de progresso e perfeição poderiam muito bem ser revertidos a períodos de barbárie. Mas mesmo esta ideia carrega um caráter mecanístico em vez de evolucionário. É por isso que não há em Voltaire o otimismo e a fé no futuro que os pensadores mais tardios do Iluminismo irão cultivar. O sentido de uma realidade sóbria, que pertencia ao final do século 17, ainda era muito presente no seu pensamento. Além do mais, seu ideal de Iluminismo era egoísta e centrado nos interesses da alta classe da sociedade Francesa e Europeia para produzir o ímpeto universal que conduziria à crença posterior em um progresso humano triunfante. [...] Com uma tal visão de mundo, o prazer no momento presente era o bem supremo. Voltaire aumentava esse prazer pessoal com a justificação da história universal.
Voltaire reconhecia, na mistura dos elementos presentes no homem, a possibilidade de refinamento de um deles e, logo, a redução do outro, isto é, da razão se sobrepor à desrazão, em certa medida. Porém sua concepção da volatilidade humana refletia seu pessimiso histórico e fazia dessa inconstância do homem uma constante intrínseca no développement da história;
The time will come when savages will be performing operas, and we shall have reverted to the Red Indian dances (danse du calumet).

Meinecke
Der Historiker Friedrich Meinecke (1862 - 1954)

Meinecke deduz do fato de que, para Voltaire, a natureza provê o homem com esses elementos de razão e desrazão e de que as variáveis da interação desses dois elementos se dê de forma mecânica, a possibilidade de regulação desse mecanismo chamado homem, como através de uma simples fórmula R > D ⇒ I, já que, todas as interações/causas e efeitos entre os elementos do homem entre si e entre estes elementos e a realidade externa produzem efeitos, apesar de diversos, necessários. ''And now a remarkable thing was to take place: this clock was to become its own clock­ maker and itself undertake the necessary improvements to its mechanism until it reached the stage of perfection for which it was designed.'' E, por isso, abria o caminho para uma concepção de transformação mais ampla do poder criativo do homem. Entretanto, por haver o elemento de variabilidade, a fórmula R > D ⇒ I deverá coexistir com o que poderia ser representado por uma função X = f (R, D), a qual distinguiria um indivíduo ou uma nação não só no grau da razão, mas, também, no elemento final da inevitável relação entre Razão e Desrazão (hábito, paixão, etc.).

No Essai sur les mœurs et l'esprit des Nations, a ideia do ''espírito das nações'' aponta incipientemente à ideia que, posteriormente, será mais desenvolvida: do caráter nacional, do espírito do tempo; ou do Volksgeist e do Zeitgeist. Meinecke:
It is remarkable that the Enlightenment increased the urge to get at the ''spirit'' of human creations, a some­thing that could not be accurately described in rational terms, as the operative force, where previously writers would have preferred as far as possible to ascribe this to mechanical laws of motion. But this was indeed an impossibility; and so the position represented by this doctrine of the ‘spirit’ behind human creations showed that the Enlightenment was already almost outgrowing its rationalising and mechanistic ways of thought and being directed into a new and supra-rational realm. Movements of this kind are particularly sig­nificant in the history of ideas, because they reveal the germ of what is to come in the previous only just nascent period, and so demon­strate the deep continuity of all development.